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terça-feira, 30 de agosto de 2011

A extinção do Preparador Físico - Parte II

          Tempos atrás, escrevi um texto que tinha como título "A extinção do Praparador Físico" (http://gilterlanferreira.blogspot.com/2010/10/extincao-do-preparador-fisico.html), onde
comentava que a figura ATUAL desse profissional iria desaparecer futuramente. Muitos de nós, Preparadores Físicos, podemos nos sentir ameaçados com essa “previsão” , mas não vejo outro caminho, que o futebol, em sua essência, poderá seguir. 
No II Seminário de futebol esse tema veio à tona na palestra do Professor Nuno Amieiro e causou uma certa polêmica. Pena que o tempo foi tão curto para debatermos algo tão complexo. 
          Estamos em uma época onde paradigmas são constantemente quebrados. A busca pelo conhecimento é cada vez mais voraz e contínuo. Portanto, partindo desse pressuposto, creio que estamos a um passo de transgredir as regras do pensamento analítico em detrimento do pensamento sistêmico. "(...) esta forma redutora de interpretar os problemas complexos e os procedimentos abstratos tem caído em falência metodológica." (Durand, 1979). Hoje aceita-se a idéia de equipe como um sistema complexo de elementos em interação.


“Concorrendo para essa questão, Morin (1997) refere-nos que o sistema é um ‘todo’ constituído pelas relações dos seus constituintes. Nesse seguimento, o ‘jogar’ expressa as relações de cooperação entre os colegas e de oposição com os adversários. De acordo com essa concepção, o jogo é um sistema de ‘sistemas’.”  (GOMES, 2006)

          Alguns de nós, Preparadores Físicos, alegamos trabalhar em especificidade, pois não utilizamos longas corridas contínuas e trabalhamos 'com bola', porém, a visão cartesiana continua norteando todo o processo. Não quero aqui dizer que, EU trabalho em Especificidade, longe disso. O assunto é por demais complexo, e não me deixa falar em  tal situação. Porém, creio que o primeiro passo, para que isso um dia realmente ocorra, será nos libertarmos das correntes do comodismo, das amarras dos pensamentos arcaicos, retrógrados e reducionistas que permeiam a nossa sociedade. 
          Em seu último Post, Luis Esteves (http://www.organizacaodejogo.blogspot.com/), do qual sou leitor assíduo, fala que tudo é uma questão de MEDO. E sou obrigado a concordar com ele. Como posso refutar uma ideia ou teoria da qual desconheço? Isso é no mínimo ignorante! Tenho falado que é difícil sairmos da nossa zona de conforto, pois é muito mais cômodo repetirmos o que fazemos, repetidamente, ano após ano. Muitos, para justificar o que não se conhece, falam na questão cultural de nossos jogadores como um dos fatores limitadores para emprego da Periodização Tática. Ora, se nossos jogadores são produtos do meio em que estão inseridos, como podemos mudar esse quadro cultural? (A resposta é óbvia! Ou não?). Isso, ao meu ver, é a prova maior do comodismo ao qual estamos inseridos. Pensar e sistematizar nossa prática é tarefa árdua, e não estamos acostumados a pensar complexamente.
          Eu, como Preparador Físico, não me sinto 'ameaçado' ou coisa parecida. Sinto-me, cada vez mais, entusiasmado com a mudança de paradigma que se desenha. Cada vez mais, vislumbro a possibilidade de fazer parte de um 'futebol pensante'. Afinal, o futebol nada mais é do que um jogo. E o jogo é pra ser jogado!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Aleatória Auto-Organização das equipes.

Estava conversando com o colega Luís Esteves¹ (profissional que admiro bastante), e tocamos no assunto de como é comum vermos, em certos casos, uma equipe de futebol  moldar-se 'sozinha', de acordo com as características das peças (jogadores), e não por um trabalho interveniente do seu treinador. Às vezes, a soma das características desses jogadores, e tão somente essa soma, faz surgir um interessante  modelo de jogo. A interação entre os jogadores se dá, de tal maneira que, tudo flui de uma forma positiva. 

As características desse sistema, não foi resultado de uma organização consciente de seus jogadores, muito menos da intervenção do seu treinador.  É um "fazer sem saber o que está sendo feito". É, na verdade, um conjunto de vivências individuais, que num dado momento, e de forma aleatória, produziu uma (como referiu-se Luis Esteves) auto-organização.  

"Toda a interação dotada de alguma estabilidade ou regularidade assume um carácter organizacional e produz um sistema" ( Morin, 1990)

E assim, com treinos que em nada tem a ver com a complexidade do jogo, ganham-se partidas e conquistam-se campeonatos. Com metodologias ultrapassadas e cartesianas, onde o físico está acima da técnica e da tática, alguns treinadores triunfam!

Todavia, não será sempre que as equipes terão essa auto-organização, e será necessário que o treinador tome as rédeas do processo, sob pena de ter em suas mãos, uma equipe totalmente desnorteada.

"A organização dos jogadores configura as interacções da equipa e por isso, leva a determinadas regularidades que a identificam. Deste modo, um sistema sem organização resulta numa agregação aleatória de acontecimentos sobre os quais os jogadores e treinador têm maiores dificuldades em interagir". (Garganta & Cunha e Silva, 2000).


Muitos, treinam suas equipes por imitação. Alguns de acordo com o que vivenciaram em épocas passadas, ou quando jogador, e por conta de suas visões reducionistas, elegerão esses métodos, como verdade absoluta até o final da vida. Devemos atentar que o futebol é muito mais complexo do que possa parecer. Cada equipe tem uma identidade própria e nenhuma é igual a outra. Os métodos que foram eficazes para a equipe A pode não ser tão benéficos se aplicados à equipe B.

Uma grande parte dos treinadores, relutam em aceitar o novo pelo simples fato de não saber fazer nada mais além da imitação.

Sair da zona de conforto, é muito mais difícil do que, simplesmente, renegar uma nova metodologia que o faz pensar, refletir, transcender.





"A questão única está no medo de: transcenderfugir do comum e modificar padrões instaurados na sociedade do futebol. Sair do modelo convencional, que foge do corriqueiro é uma tarefa árdua, especialmente pela nítida massificação das tais idéias do abraçar e morrer pela “religião do treino tradicional”. E quando se é percebido (através da ciência, que fique bem claro) que tal modelo é ultrapassado e questionado a cada dia que se passa pelo tempo perdido com o mesmo, surge a estranha sensação de alívio ao observar algo novo fluir, e em nada (ainda bem) se parecer com o arcaico. A partir daí, começa-se a entender que a troca de paradigmas é inevitável para a evolução de qualquer atividade humana."  (Greboggy e Cazerin).



Não é tarefa fácil sistematizar um modelo que privilegie um "saber fazer" por parte dos jogadores. Fazer com que, compreendam e, junto com o treinador façam surgir um modelo de jogo que vá de encontro com as características da equipe. É necessário, antes de tudo, mudar o entendimento do que achamos que é o futebol. Mudar a direção do nosso olhar e ampliar o nosso raio de visão. Devemos nos livrar das correntes cartesianas, na qual estamos há séculos atrelados. Devemos, principalmente, ter a humildade de estudar sempre, sabendo que quanto mais estudamos menos sabemos.




(¹)Treinador de futebol e autor do blog www.organizacaodejogo.blogspot.com

sábado, 26 de março de 2011

A visão reducionista do nosso futebol

Considero o Daniel Portela um grande fisiologista do nosso futebol, porém a idéia que ele tem sobre a Periodização tática parece-me equivocada. Nos vídeos abaixo, ele e o também fisiologista Marcos Serra, concedem entrevista ao site do professor Artur Monteiro, e mostra total falta de conhecimento acerca do assunto. Um estudo epstemológico sobre a a Periodização tática e, a partir daí, compará-la com outras metodologias, periodizações, seria o mais sensato a se fazer. A ''preocupação física'' sempre vai existir em qualquer que seja a metodologia empregada, porém na Periodização tática não é ela quem rege toda a preparação e sim a dimensão TÁTICA, o JOGAR. A visão cartesiana ainda impera no nosso modo de treinar futebol e isso ainda levará um tempo para ser mudado. Como falei anteriormente: Não acredito que exista certo ou errado no futebol. Creio na visão que cada um  tem do que realmente é o futebol!









quinta-feira, 17 de março de 2011

O que é certo ou errado no futebol?

Estamos em 2011 e deparamo-nos com um presente futebolístico ainda retrógrado, apesar das mudanças ao longo do tempo. A falta de conhecimento dos que dirigem as equipes (corpo técnico e diretoria),  não deixa ocorrer as transformações necessárias para um avanço que é inevitável.

Costumamos, no futebol, ''enfeitar demais o pavão'': GPS, lactímetro, fotocélulas etc. e perdemos o foco no principal: o jogar futebol! Não entendo o treinar de uma forma para jogar de outra. Qual o sentido desta prática, ainda muito comum?




Creio que a mudança provoca medo, desconforto, insegurança. Afinal, é mais cômodo e fácil,  ''fazer o que todos fazem''. O estudo aprofundado do futebol exige esforço e dedicação. Isso não ficou para todos. Creio no treino como espelho do jogo e no jogo como reflexo do treino! Não estou entrando no mérito do que é verdadeiro ou falso, do que é certo ou errado. Estou, apenas, entrando na lógica do jogo e partindo disso, tirando minhas conclusões e seguindo minha metodologia de trabalho.

Critico a resistência ao novo, mesmo lembrando uma frase do Vitor Frade: Não temos necessidade daquilo que desconhecemos. Critico, pois, desta forma, a falta de gana pela busca ao conhecimento, do aperfeiçoamento contínuo, do intercâmbio. A informação e o conhecimento estão logo ali, para quem quiser e tiver disposição. Falta-nos, também, a coragem de acreditar em algo e por em prática.''Cada verdade tem o seu momento mas quando se elege uma verdade deve-se defendê-la em todo o momento” (Valdano, 1998).


Afinal, o que é certo ou errado no futebol? Não acredito que exista um ou outro. Creio na visão que cada um  tem do que realmente é o futebol!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A extinção do preparador físico

          O futebol hoje está mais tático do que nunca. Sendo assim, o tempo dedicado aos treinamentos deve ser, cada vez mais, utilizado de forma qualitativa. Quando falo isso, refiro-me a treinar de forma racional e objetiva de acordo com a especificidade do desporto pretendido, no nosso caso o futebol. Hoje no site http://www.cidadedofutebol.com.br/ deparei-me com um interessante artigo: Preparador físico e auxiliar técnico? (que tem a autoria dos colegas Lucas Vinícius e Renato Buscariolli) que corrobora com o meu pensamento: o papel do preparador físico tradicional está com os dias contados!



          O futebol é muito complexo para nos preocuparmos somente quantitativamente. Quantas repetições temos q fazer? Em quanto tempo devemos realizar cada volta? Quantos saltos devemos realizar?



          A especificidade do futebol está intimamente ligada ao modo como a equipe joga. José Mourinho define a especificidade do futebol em ''ter uma metodologia de treinamento integralmente subordinada ao modelo de jogo.'' Se é dessa forma, temos que transformar a nossa sessão de treino num lugar onde os jogadores executem ações pertinentes ao modelo de jogo da equipe. Como posso treinar de maneira diferente do que pretendo? Se quero que minha equipe adquira hábitos, tenho que criar situações nos treinamentos, na qual os jogadores possam vivenciá-las e não só se deparar com a situação na hora do jogo. Sobre como criar essas situações (exercícios) Rui Faria (adjunto de José mourinho) tem a sua idéia:


''Fundamentalmente temos que perceber que o exercício quando surge já tem que estar configurado de modo a que os comportamentos que pretendemos em termos de princípio, de objectivo, se evidenciem, ou seja quando o estruturamos já críamos condições para que o que pretendemos surja com frequência. Isto é o mais importante, é a Especificidade do exercício e nós como treinadores, em função das nossas necessidades é que vamos elaborar o exercício de acordo com determinado objectivo.''


          Diante disso, como, ainda, perde-se tempo com corridas cíclicas que nada tem a ver com o jogo de futebol, excetuando-se o simples fato do futebol também utilizar-se da corrida? O preparador mais do que nunca tem que entender de futebol. A fisiologia é um suporte que precisamos, mas não a única ferramenta, ainda mais se utilizada de forma isolada.
          Por isso, não creio que a figura do preparador físico vá perdurar por muito tempo. Falo do preparador físico tradicional. O profissional descontextualizado com o todo. O separatista! Creio que o preparador físico passará a ser um fortíssimo adjunto do treinador. E não somente essa figura reducionista que hoje existe.


          Abraço e até o próximo post!

terça-feira, 23 de março de 2010

Resultado é tudo!


Incrível como o resultado final molda a opinião das pessoas. Não importam os meios para se atingir determinados objetivos. O resultado final é que dirá se somos competentes ou não. Em caso de resultado satisfatório, não se procuram avaliar quais os meios que foram adotados. Mas em casos de derrotas sim! Creio eu que no primeiro caso a cobrança deveria ser tão ferrenha quanto no segundo, pois só assim não teríamos espaço para acomodações e principalmente para práticas obscuras e antiéticas de se conseguir tudo a qualquer custo.
Na preparação física n é diferente. Tudo se resume ao resultado final de jogo. Infelizmente a arte da preparação física n é uma ciência exata. Queria eu que fosse, pois, assim saberíamos exatamente quando erramos, o que erramos e porque erramos! A preparação física é muito complexa para ser quantificável. Dependemos de vários fatores para que a equipe possa corresponder bem dentro de campo. Dentre essas variáveis podemos citar: A- modelo de jogo adotado (MJA) por nossa equipe; B- MJA pela equipe adversária; C- alimentação (suplementação em alguns casos); D- clima; E- coerência na hora do treinar; F- técnica; G- capacidade emocional; etc...
Mas tudo o que importa é o RESULTADO FINAL, e temos que ter isso em mente sempre se quisermos continuar ''vivos'' e atuantes em qualquer área profissional.
Abraços e até o próximo post!!!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Questionamentos e esclarecimentos.

Muitos me questionam sobre como não lanço mão das ditas periodizações convencionais em meus treinamentos. Perguntam-me como quantifico a intendidade e carga dos treinos sem um ''balizamento'' dito científico (periodização).
Primeiro devemos saber se utilizamos a ciência de modo específico para verificar a questão
do volume e intensidade. Aliás acho que a preocupação com relação à esses dois itens chega a ser exacerbada. Não quero dizer com isso que o volume e intensidade não devem ser levados em conta na hora do treinar, longe disso! Refiro-me à constante preocupação dos preparadores com relação a intensidade do treinamento: ''Meus jogadores terão que correr à uma intensidade de 80%'' ou ''Meus meio-campistas hoje irão realizar 6 tiros de 1000 metros com o tempo de 3,5 minutos cada'' . E me perguntam: ''Como, senão dessa forma, você quantifica seus treinamentos?'' E eu respondo: Simples, apenas não treino dessa forma! 
Na minha modesta opinião a intensidade tem que ser a intensidade exigida no jogo, ou próximo disso. Como fazê-lo? Mais simples ainda: Criar situações de treinos onde o atleta se depare com situações mais próximas possíveis das que encontrarão nos jogos! Desta forma além da exigência física ''pura'' (se é possível quantificá-la em separado) estaremos treinando em intensidade mental elevada! Desta forma unimos Tática-físico-técnico-psicológico em nossa sessão de treino. Muito diferente de treinar em corridas quantificáveis (onde não existe a necessidade de se pensar e os gestos motores não são os mesmos) é treinar de modo específico as situações de jogo. Lógico que a esquematização e planificação das sessões de treinamento irão requerer muito mais do nosso pensar, pois passaremos a nos preocupar com o jogar como um todo e não de forma dissociável como o fazemos. Assim vejo a questão do treinar em especificidade.
Abraços e até a próxima!!!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Coerência na hora do treinar!


Depois de muito tempo ausente devido aos meus compromissos profissionais, retorno para escrever sobre coerência na prática cotidiana de quem trabalha com futebol. Espanta-me muito ainda como existem discrepâncias entre o jogo propriamente dito e o modo de como treinamos para este. Ainda vemos muito por aí metodologias baseadas no antigo e tradicional treinamento para atletismo. Treinamentos recheados de tecnicismos que nada tem a ver com o futebol a não ser somente o puro fato de tanto nesse esporte como no atletismo nos utilizamos da corrida. Ainda pode-se ver treinamentos priorizando de maneira exacerbada exercícios aeróbicos de corridas contínuas muitas vezes utilizando a própria pista de atletismo do CT ou estádio de treinamento. É fácil notar que jogamos de uma forma e preparamos nossas equipes de outra. Treinamentos baseados nos famosos coletivos, finalizações e treinos físicos ''puros'' sem a presença dos fatores que compõem uma partida de futebol: Bola, campo, adversários etc. Desta forma o atleta n precisa tomar decisões (intensidade mental) e está treinando fisicamente de uma maneira que não lhe é comum e exigida quando este está a jogar futebol. Devemos treinar com situações que simulem o que realmente acontecerá durante os jogos, criar exercícios próprios que moldem o estilo de jogar de nossa equipe e que exija dos atletas a necessidade de pensar, de agir e de se sair bem de determinadas situações que lhe serão cobrados nas partidas. O pensamento crítico sobre o que estamos treinando deve ser o primeiro passo para a obtenção de melhores resultados e engrandecimento profissional.
Abraços e até o próximo post!
Gilterlan Ferreira - Preparador Físico de Futebol - CREF 001193-G/RN. Tecnologia do Blogger.