terça-feira, 1 de março de 2011

O principal diferencial de José Mourinho

Venho aqui, somente transcrever esse excelente artigo que professor Alcides Scaglia disponibilizou no site: www.universidadedofutebol.com

Treinos devem preparar para as situações e problemas do jogo
“Treino é treino, jogo é jogo!”. Este é um dos adágios populares mais alardeados nas searas futebolísticas. Jornalistas, técnicos, jogadores, torcedores... Já escutei esta frase de todos eles. Contudo, o problema não se resume no reproduzir este ditado, mas em acreditar nele.
Esta máxima, se levada ao pé da letra, me permite concluir que não tem sentido treinar. Se o treino é circunscrito em si, ou seja, tem um fim nele mesmo, não mantendo relação com o jogo, treinar passa a ser apenas ocupação de tempo ocioso antes do jogo, pois o mesmo não prepara os jogadores para enfrentar os problemas do jogo.
José Mourinho, mesmo não utilizando este adágio, disse de outro modo a mesma coisa em um pequeno trecho do livro “Um ciclo de vitórias”. Em 2000, depois de sua estréia com derrota no Benfica, Mourinho constatou que faltava hábito de trabalho no clube e para isto justificou-se destacando a falta de agressividade (importante não confundir com violência) nos treinos.
“(...) havia a questão da agressividade no treino, que era inexistente. Algumas ‘individualidades’ simplesmente não queriam que houvesse o mínimo de agressividade nos treinos. Resultavam daí que treinavam sem caneleiras, logo sem contacto e sem situações competitivas. Os treinos no Benfica eram, no mínimo, caricatos. Diariamente, um grupo de bons rapazes dava uns toques na bola, fazia umas corridas e era tudo”.
Para entender melhor o que disse Mourinho, recorri às inquietações filosóficas de nosso filósofo da Educação, o professor Paulo Guiraldelli Jr., que em uma de suas aulas na TVfilosofia (www.tvfilosofia.blog.br), disse que o conceito de  filosofia poderia se resumir na desbanalização do banal. Ou seja, o filósofo quer dizer que o trivial (banal), o comum, o corriqueiro, o habitual, passa a incomodar o filósofo, que então se debruça a investigar e desvendar o que o senso-comum encobriu.
Por meio da afirmação do filósofo Paulo Guiraldelli Jr., posso inferir que Mourinho filosofou a respeito dos treinamentos no Benfica (que pode ser generalizado para uma grande quantidade de clubes). Ele exatamente desbanalizou o banal ao abordar algo óbvio, mas que ninguém, via, vê ou quer ver.
No futebol os treinos e seus objetivos são banalizados. Pode-se dizer isto no sentido de que os mesmos não se preocupam necessariamente em manter uma relação com o acaso e as exigências presentes no jogo. Por exemplo, nos treinos reina a previsibilidade, no jogo impera a imprevisibilidade.
Explico: desde a rotina da semana, passando pelo aquecimento, treinos físicos, treinos técnicos, treinos táticos, até a nutrição antes do jogo, são previsíveis, no sentido de sempre se repetirem, enquanto que o jogo é marcado por situações inesperadas e irredutíveis, logo nunca uma mesma jogada se repete, uma mesma ação é reproduzida, ou mesmo, um gol igual ao outro é convertido.
Na imensa maioria dos clubes a preparação física acontece desintegrada das demais preparações (técnica, tática e emocional) e longe do campo de jogo, sem bola, e ainda mais, por incrível que possa parecer, com a imposição autoritária do técnico impedindo o preparador físico de literalmente por as mãos na bola.
Já no jogo os jogadores jogam com o físico, a técnica, a tática e o emocional integrados. Não há possibilidade de no jogo de futebol separá-los em partes, reduzi-los a momentos em que as valências físicas possam ser isoladas dos demais componentes do jogo, sem ser influenciada pelos mesmos.
Os treinos técnicos são analíticos, repetem-se movimentos de forma descontextualizada do jogo, ou melhor, treina-se a reprodução de movimentos fechados, padrões gestuais são preestabelecidos. Adestra-se uma habilidade fechada. Desse modo, formam-se exímios malabaristas com a bola nos pés e inaptos jogadores.
No jogo são exigidas habilidades abertas, pois as exigências de execução são sempre variadas e requerem constantes adaptações, ajustes inesperados. Logo, se os jogadores nos treinos não são estimulados a potencializar suas respectivas capacidades adaptativas, estes se apresentam como inadequados, ou até contraproducentes na perspectiva de altos rendimentos.
Já os treinos táticos realmente não exigem a utilização de caneleiras, como advertiu Mourinho, pois, na maioria deles, os marcadores fazem sombra aos atacantes titulares, ou seja, apenas acompanham a jogada, dando azo até às típicas situações constrangedoras em que, se a sombra for muito grande em tamanho e menor em idade e o jogador titular muito pequeno em atitude e vontade, este humilha esse.
Fala-se aos quatro cantos do mundo da bola que estes treinos táticos ensaiados e coreografados já foram alvo de crítica de um dos paradoxais gênios do nosso futebol brasileiro. Diz-se que Garrincha certa vez, depois de participar de um desses treinos perguntou ao técnico se já haviam combinado também com o time adversário.
Garrincha foi e é motivo de piadas e chacotas no meio futebolístico em relação a sua hipotética limitação intelectual. Será que ele estava errado ao fazer esta colocação (se é que a fez na verdade)? Ou será que ele estava errado apenas na perspectiva do paradigma cartesiano, no qual impera a ordem linear? Pois, à luz do paradigma da complexidade descrito por Edgar Morin, seria somente combinando com o adversário para que se possa criar um ambiente para a materialização e transferência de conhecimentos da coreografia de acontecimentos ensaiados no treino para realidade do jogo.
O jogo sempre tende ao caos, à desordem. Os treinos criticados por Mourinho acercam-se da ordem, da linearidade. Até os treinos coletivos, que se caracterizam como jogo, muito raramente acontecem se levando em conta fatos que são corriqueiros, como, por exemplo, a desigualdade numérica. Uma equipe nunca treina como jogar com um ou dois jogadores a mais ou a menos, porém se depara inevitavelmente com esta situação quase que em todos os jogos.
Portanto, a partir da simples, da aparente constatação de que os jogadores do Benfica não usavam caneleiras (fato banal, invisível aos olhos positivistas) é possível entrever que a agressividade (no sentido de ações/desafios que põem o jogador em jogo) se apresenta como um importante indício que nos mostra o quanto os treinos não guardam semelhanças com o que acontece no jogo, logo desnecessários; logo caricatos.
Ao desbanalizar o treino banal, José Mourinho edifica e consolida sua peculiar metodologia de treinos. E, digo novamente, até de maneira inocente ele nos ensina como fazer para que as ações do treino possam ser transferidas para o jogo:
“Para dar um exemplo, imagine-se duas equipas, num quadrado de 30 metros de lado, onde cada uma delas tenta manter a posse da bola. Se eu reduzir o quadrado, de 30 para 10 metros de lado, modifico logo tudo porque os obrigo a uma maior proximidade entre eles, logo mais contacto físico, logo a mais competitividade, e por aí fora. Outra alteração que introduzi foi o uso obrigatório de caneleiras”.
Então posso concluir que o notório técnico português ressignificou o ditado popular que diz que treino é treino, jogo é jogo. Por intermédio de José Mourinho e sua inovadora metodologia o adágio passa a ser: “Treino é jogo, jogo é treino”.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

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